João Pessoa, 24 de Março de 2019
Cultura
08/01/2019 as 13:29min - PB Agora
Tradição dos bacamarteiros vem sendo recuperada na Paraíba

Quem vê um bacamarte pela primeira vez se espanta. Tem o cano longo, pesa aproximados seis quilos e o sistema de carga é avante, que é quando a pólvora é colocada diretamente no cano e socada com uma vareta de ferro.

 

Hoje obsoleta, a arma usada pelo Brasil na Guerra do Paraguai se transformou numa das mais tradicionais manifestações culturais do interior do Nordeste. Na Paraíba, a origem do folguedo é incerta, mas há consenso de que começou no final do século 19. Seu Antônio Fuba, 65, bacamarteiro da cidade de Juru, no Sertão paraibano, conta que aprendeu a atirar aos oito anos.

 

“Minha mãe não gostava muito, mas meu pai fez questão de me ensinar, porque ele aprendeu com meu avô, que aprendeu com meu bisavô”, explica orgulhoso. O folguedo consiste no agrupamento de homens e mulheres em batalhões, regimentos ou pelotões. O grupo é coordenado geralmente pela pessoa mais antiga, que recebe a patente simbólica de sargento, chefe ou capitão.

 

Ao longo do ano, os grupos se reúnem para saudar com salvas de tiro seco – usando apenas pólvora – as datas comemorativas dos municípios, geralmente acompanhados por bandas cabaçais e trios de forró. A versatilidade do uso do bacamarte ainda hoje está presente no imaginário popular. “Antigamente a maioria morava no sítio, então usava o bacamarte pra fazer um divertimento pras crianças, avisar quando chovia ou quando nascia um menino”, relembra Antônio de Davinha, 61, membro do Conselho Municipal de Cultura da cidade de Serra Grande.

 

A partir de 2003, com a implantação do Sistema Nacional de Armas e a criação da Campanha do Desarmamento, o universo da tradição do bacamarte foi abalado por relatos de bacamarteiros que tiveram suas armas apreendidas. Quem conseguiu manter o bacamarte, seja escondido em casa ou enterrado em algum lugar do sítio, passou a conviver com o receio da apreensão e da criminalização do folguedo. Conforme explica o investigador da Polícia Civil, Antônio Irapuan, “nos primeiros anos do Estatuto do Desarmamento, os policiais recebiam gratificações para cada arma de fogo apreendida”.

 

Sem uma regulamentação específica e com poucas informações sobre os procedimentos que permitiriam a regularização do festejo, muitos grupos foram desarticulados, inclusive na Paraíba.

 

Em novembro, a Secult instalou a Articulação dos Bacamarteiros da Paraíba, uma rede que reúne o Governo do Estado, as prefeituras e os representantes dos bacamarteiros. O objetivo é prestar assistência aos grupos no processo de regularização do festejo.

 

Nos dias 15 e 16 deste mês, a articulação esteve nas cidades de Juru e Serra Grande. Ao longo de 2019, a rede também visitará os municípios onde foram detectados grupos de bacamarteiros, a exemplo de Camalaú, Congo e Coxixola.

 

O processo de regularização das novas associações será organizado em duas etapas. As prefeituras serão responsáveis por dar suporte à constituição das associações, sobretudo nos procedimentos junto aos cartórios locais e à Receita Federal.

 

Redação

 


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