Deputado mais votado da história do Brasil, Enéas Carneiro foi um personagem marcante na vida pública nacional. Seu recorde de mais de 1,5 milhão de votos para Câmara Federal, em 2002, até hoje não foi superado por nenhum candidato ao Poder Legislativo.

Vencido por um câncer em 2007, concorria pelo pequeno Partido de Reedificação da Ordem Nacional (Prona) e conseguiu um feito histórico ao deixar para trás, em 1994, três figurões da política: os governadores Leonel Brizola (PDT-RJ), Orestes Quércia (PMDB-SP) e Espiridião Amin (PP-SC).

Com mais de 7% dos votos, chegou em terceiro lugar, atrás apenas do petista Luiz Inácio Lula da Silva e do tucano Fernando Henrique Cardoso, vencedor da eleição.

Vinte e três anos depois, várias de suas bandeiras ressurgem na disputa presidencial. O encarregado de representá-las: Jair Messias Bolsonaro.

Sempre exarando posicionamentos fortes, Enéas, assim como Jair, era destemido e dava o que falar.

Colegas por cerca de cinco anos na Câmara Federal, durante uma sessão em 2005, o deputado Enéas Carneiro, sempre crítico de seus colegas políticos, usou a tribuna para elogiar Jair Bolsonaro, a quem se referia como “capitão”.

Afinados, Bolsonaro e Enéas projetavam um plano audacioso: botar ordem no Brasil.

A identificação é tanta que Bolsonaro cogitou, inclusive, mudar o nome do PSL para Prona em homenagem ao político acreano, depois de aprovar no Congresso um Projeto de Lei para que Enéas Carneiro fosse incluído no Livro dos Heróis da Pátria e se tornasse um mártir, a exemplo de Tiradentes.

Posições polêmicas 

Assim como Bolsonaro, Enéas rejeitava o rótulo de fascista e dizia que seu único vínculo com os regimes totalitários era sua postura nacionalista.

Quando lançou o Prona, o médico conquistou o apoio de centros de estudos integralistas, movimento nacionalista inspirado no fascismo italiano e que teve como destaque o político e escritor paulista Plínio Salgado (1895-1975), que na eleição presidencial de 1955, obteve 8% dos votos, resultado parecido com a votação de Enéas em 1994.

Em entrevista polêmica ao programa Roda Viva, o médico declarou que os homossexuais eram “um desvio” e “um grupo que, se fosse generalizado, representaria a extinção da espécie humana”.

Embora fosse visto como folclórico por muitos eleitores, Enéas incorporava um discurso político com longa trajetória na política brasileira, aplicado no Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1946).

Enéas e Bolsonaro representam a continuidade, com poucas modificações, de um longo trajeto da direita no Brasil.

Forças Armadas

O militarismo é o principal ponto em comum entre ambos. Na campanha de 1994, o candidato do Prona defendeu triplicar o efetivo das Forças Armadas. Em 1998, noutro aceno ao setor, Enéas propôs que o Brasil desenvolvesse armas nucleares. “Não é para jogar a bomba em ninguém, mas sim para evitar que alguém jogue a bomba aqui”, afirmou.

Mais tarde, após se eleger deputado, Enéas tornou-se um dos principais críticos ao desarmamento da população civil, integrando o que hoje é intitulada como “bancada da bala”.

Reservas minerais

Posições do médico sobre o metal nióbio, usado para aeronaves, também ocupam um papel central na plataforma econômica de Bolsonaro. Ele compartilha do entusiasmo do acreano e defende que o Brasil tenha um “vale do nióbio”, referência ao Vale do Silício, sede de várias das maiores empresas de alta tecnologia dos EUA.

Demarcação de terras indígenas

Outro ponto que une Enéas e Bolsonaro é a crítica à demarcação de áreas indígenas. Em 2005, quando eram colegas na Câmara dos Deputados, os dois viajaram juntos à Roraima, onde a maior parte das terras são ocupadas por índios.

Na volta, Enéas afirmou no plenário que os indígenas não precisavam de terras, mas de melhores condições materiais. Sendo aparteado por Bolsonaro, que acrescentou que “onde tem uma terra indígena, tem uma riqueza embaixo dela”.

Enéas Mil Grau

As frequentes menções de Bolsonaro a Enéas têm ajudado a popularizar o acreano entre fãs do deputado e grupos de jovens de direita.

No canal Enéas Mil Grau no YouTube, um vídeo expõe as “mitadas mais divertidas” do cardiologista. Indagado num programa de TV se acreditava em Deus, ele diz que sim, pois não conseguia “entender um universo tão bem feito no nível macrocósmico e microcósmico sem que haja uma mente prodigiosa por trás”. Uma montagem então exibe o rosto de Enéas com óculos escuros ao som do rap Turn Down For What.

Em alguns vídeos, o saudoso médico é exaltado como visionário ao criticar o mega-investidor húngaro-americano George Soros, alvo atual também do “Bolsonarismo”.

Muitas páginas de fãs de Bolsonaro mostram entrevistas e discursos de Enéas, ressaltando sua afinidade ideológica com o “ídolo” desprezado, humilhado e chamado de louco por muitos.

Saberemos em breve se o plano de Enéas, incorporado por Bolsonaro em 2018, conseguirá a tão sonhada façanha de chegar ao Palácio do Planalto.

Enéas e Bolsonaro: gênios ou loucos?

 

por Ytalo Kubitschek

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