João Pessoa, 23 de Março de 2019

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Paraíba
01/05/2013 as 10:51min - Marcos Souto Maior Filho
HOMEM DO BEM

Nos últimos dias faleceu um dos homens mais sereno e tranquilo que conhecemos. Trata-se de Dr. Hermano Guerra, Juiz de Direito e Diácono da Igreja Católica. Em crônica “Homem do Bem” escrita pelo Desembargador Marcos Souto Maior, foi retratado um pouco de seus traços e vida. Transcrevemos ante a relevância do texto e homenagem póstuma merecida:


HOMEM DO BEM


Conheci Hermano Guerra, nos idos dos anos setenta, quando eu, um jovem advogado e ele juiz de direito experimentado da comarca de Cabedelo, Paraíba. Naqueles tempos, eu adquiri uma casa de veraneio na praia de Camboinha, financiada pelo Estado, e lá também morava o querido amigo e sua família onde, do meu terraço, dava para avistar a casa alugada pela família Guerra.

Na pacata cidade, certo dia foi sacudido com notícia veiculada em rádios, jornais e televisões anunciando tentativa contra a vida do juiz José Hermano Guerra, perpetrado pelo fora da lei, conhecido por Caramel, que dera vários tiros na residência do magistrado.

Mais tarde, chegou-se à conclusão que, o marginal passara de carro pela rua de acesso ao mar e, ao ver um gato preto atravessar na frente do seu automóvel, supersticioso, sacou o revolver e tome bala...

Meu primeiro contato formal com Hermano ocorrera na Faculdade de Direito da UNIPÊ, onde fui diretor. Sua filha Fabíola se transferira para uma universidade baiana e, desejava voltar. Tinha dado uns apertos na faculdade, para manter em sala de aula, não mais que cinquenta alunos. Assumi o compromisso de deferir a volta dela no semestre seguinte... A menina ficou uma arara por desejar a volta imediata e, quando se matriculou mal me cumprimentava!

Com o término do curso, imerecidamente, os alunos me homenagearam com o nome da turma. Foi aí que Fabíola apareceu no meu gabinete com a comissão de festas dos concluintes. Rolou logo um amor, que levou Hermano ao meu gabinete, no Tribunal de Justiça da Paraíba a fim de saber minhas intenções, em tom educado como se estivesse a nos abençoar.

Homem despojado de vaidade, pacificador, trabalhador diuturno, sincero, compreensivo e determinado, e sendo avô de minha filha caçula, Maria Adélia, se preparou com afinco na leitura da Bíblia para ser ungido pelo Arcebispo Dom Marcello Pinto Carvalheira, lhe ordenando Diácono. Sua esposa, Maria Iná, inicialmente não gostou muito dessa nova atividade, porém se rendeu aos argumentos que a aposentadoria da magistratura abria espaço para o direito canônico. No Brasil tem 2,5 mi diáconos e cerca de 600 candidatos.

Em Juripiranga, pertinho da fazenda onde morava, Hermano Guerra fora designado para administrar a Igreja de Nossa Senhora da Soledade. Goteiras, paredes com infiltrações, sistema elétrico defeituoso e, tirando do próprio bolso as despesas da restauração. Fui presente no dia da inauguração das obras e testemunhei quando Maria Iná dando a mão ao maridão, uma beata esbravejou: “Oxente! Dá certo não, e o vigário é casado, é?” Hermano deu largo sorriso desfazendo o equívoco e a comunidade entendeu que Diácono pode ser casado, sim! Desenvolveu outras atividades de restaurador de igrejas católicas, como as de Salgado de São Félix, Juripiranga, Pilar, com apoio do Arcebispo paraibano Don Aldo Pagotto.

Íntimo da família gostava de brincar com Hermano; telefonava para ele em altas noites de festas, oferecendo músicas que eram recebidas com o sorriso largo dos mansos de espírito! Na madrugada desta sexta-feira passada, depois de muito padecimento, o homem bom, José Hermano Guerra, foi alçado aos céus, após enfrentar dignamente uma longa enfermidade.

Que Deus o tenha, querido sogro, a saudade fica e sua memória perpetuada!

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