Henry Tandey entrou para a história como o soldado mais condecorado do Exército britânico na Primeira Guerra Mundial, mas virou uma personalidade por causa de um feito que não entrou na lista oficial de seus reconhecimentos militares. Ele ficou conhecido por ser o homem que teve a chance de matar Adolf Hitler, mas não o fez.

 

Indiretamente, Tandey poderia ter mudado o destino de boa parte da humanidade ao evitar a Segunda Guerra, mas isso não ocorreu, cujo ato pode ser entendido em declaração do próprio britânico após o fim do primeiro conflito mundial. Disse ele ao jornal The Evening Gazette: “Nunca consegui disparar contra alguém que estivesse ferido”.

 

O fato é motivo de discussões apaixonadas por pesquisadores e historiadores da Primeira e Segunda Grande Guerra. Há um debate acadêmico se realmente o episódio ocorreu, ou se tudo não passou de um mito criado em tempos que a humanidade buscava impor a culpa do conflito em “demônios” materializados na forma de seres humanos.

E aí vem o paradoxo: quem, de fato, é o responsável pela morte de 50 a 85 milhões de pessoas, incluindo aí civis e militares, na Segunda Guerra? Hitler, a “encarnação” do mal? Ou Tandey que, em postura ética é humana, não abateu o alemão que “rasgaria” o globo em um conflito armado sem precedentes na história?

 

A resposta não é simples e cabe reflexões profundas. Hitler só viveu pela benevolência de Tandey; e não havia como o britânico saber que o Führer estaria, anos depois, à frente de uma máquina de guerra letal e desumana. Talvez um esteja interligado umbilicalmente à história do outro. Mas, observando com cuidado, foi o alemão que proporcionou o conflito armado mais sangrento de todos os tempos.

 

E nessa linha tênue da maldade; insanidade e a própria bondade, já expostas no caso Tandey e Hitler,  pode-se fazer, guardada as devidas proporções, o efeito dúbio causado a partir do decreto emitido pelo presidente Jair Bolsonaro, que flexibilizou a posse de arma de fogo no país.  alavancando uma comoção (diria histérica) de Norte a Sul do Brasil.

 

Hoje, muito mais em razão do posicionamento ideológico, deixando em segundo e terceiro planos as discussões sociais, históricas e antropológicas da sociedade brasileira, militantes de direita e esquerda – a realidade é essa – defendem veementemente suas posições, sem observar o contraditório, que há muito buscou exílio em algum lugar do passado, para não testemunhar o presente.

 

E nesse turbilhão de amor e ódio, o mais recente acontecimento para dar “fervura” ao caldo da intolerância política vigente no país, foi protagonizado por dois jovens no município de Suzano, em São Paulo.

 

A dupla, que estava encapuzada, matou dez pessoas na Escola Estadual Raul Brasil e cometeu suicídio em seguida. Fato estarrecedor, mas que merece a mesma indagação. Quem, de fato, é o responsável pela morte dos que estavam na unidade de ensino? Bolsonaro? Os jovens assassinos? Ambos?

 

Como já disse, há uma linha tênue entre maldade, insanidade e a própria bondade. Somado a isso, fatores externos, a exemplo dos valores morais podem influenciar em ações edificantes ou destruidoras. Na verdade, como no teatro grego, a única certeza envolvendo Tandey e Hitler;  Bolsonaro e os assassinos,  reside no mundo das idéias e interpretações de cada ser.  Nas lágrimas e nos sorrisos de cada ator.

 

Em Suzano, os assassinos tinham a opção de evitar o ataque, mas não o fizeram. E aí vem a “ligação”, para mim errônea, em colocar Bolsonaro no lugar do crime, e quase dos criminosos.  Embora seja eu particularmente contrário à flexibilização da posse de arma de fogo, o presidente da República nada tem a ver com esse triste episódio. Pelo menos nesse. E a história se repete no "Circulo de Fogo". 

 

Armas de fogo são a causa de 71% de mortes violentas no país

Em tempo, entre o início dos anos 1980 e 2016, o percentual de homicídios no país cometidos com armas de fogo subiu de 40% para 71% do total. Esse é mais um recorte do Atlas da Violência 2018 divulgado ano passado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

 

 

Eliabe Castor

PB Agora

 


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